Tuesday, November 10, 2009

João de Deus

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá![50]

Um beijo é graça
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É innocente...
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

Como elle é dôce!
Como elle trouxe,
Flôr!
Paz a meu seio;
Saciar-me veio,
Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flôr![51]
Deixa, concede
Que eu mate a sêde,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flôr!
A vida foge.
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo;
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face
E a mais não passe!
Dois...

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Tres![52]

Tres é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E o que te custa?
Não sejas tonta!
Tres!

Tres, sim. Não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Tres são as Graças,
Tres as Virtudes,
Tres.

As folhas santas
Que o lirio fecham,
Vês?
E que o não deixam
Manchar, são... quantas?
Tres!...

Monday, November 09, 2009

Muro

Nem de propósito, revi ontem um dos meus filmes favoritos (Fresa Y Chocolate) e revi, ao mesmo tempo, um tempo em que o mundo daquele mundo estava aqui ao lado, separado por um muro.

Lembro-me de a história se fazer presente, em ritmo alucinante de liberdade que chega e de me ter deixado embalar no sonho irreal dos problemas que se resolvem, assim, sem mais, com a queda de um muro.

Estudei, logo de seguida, numa escola academicamente multinacional e foi uma alemã da RDA (a ex RDA diremos agora) que me partiu o sonho e me puxou para uma realidade cinzenta. Ela teria outros problemas com esta liberdade que eu via cor-de-rosa. Problemas para os quais nunca se preparara. E que não queria assumir. Concluiu: era contra a reunificação alemã; queria o seu país, como antes!

Vi-a em Bruxelas, uma vez, vários anos depois. Não abordei, de novo, a questão. Presumo que tenha resolvido os problemas de então. Ou talvez sonhe, em segredo, com a vida de outrora e a que teria tido se o muro ainda existisse.

Friday, November 06, 2009

Tempo...falta de,

Entre "Guerra e Paz", Tratado de Lisboa e demais hobbies e afazeres, algo tinha que sofrer.
Por escolha própria, é o blogue a vítima.
Eu sei porquê.

Tuesday, November 03, 2009

Lisboa

O Tratado de Lisboa, brevemente, numa União perto de si.

Natal

Disseram-me que o mundo roda.
(O poeta acrescentou até que roda como roda a bola nas mãos de uma criança).
Nunca fui dada às ciências e sinto o meu cérebro pouco lógico por vezes.
(Pois, se o mundo roda, rodará sem fim, como a corda partida de um relógio, ou rodará até ao fim da mola e depois des-rodará em aumento constante de velocidade até chegar ao princípio e depois rodará de novo e depois des-rodará e assim de seguida até parar de todo?).
Acho que o mundo se enrola e desenrola como as ondas do mar, de cada vez trazendo uma coisa nova, uma nova concha, mais um seixo, que, de facto, não são coisas novas!
Este ano houve uma onda mansinha com as abóboras do Halloween, tempo de calmaria como convém nos mares destas nossas praias, que isso de monstros e monstrinhos é mais típico de outras costas...
Mas as ondas invernais já começam a espalhar no areal fitas e bolinhas, um ou outro pai natal, ainda de pequeno porte, agulhas de pinheiro.
O vento ainda não me traz toques de sinos ou coros de crianças.
Vou continuar à espera.
Que chegue o Natal.

Thursday, October 29, 2009

Colónia

O dia estava cinzento, chuvoso.
Próprio da estação.
Ainda assim a catedral de Colónia erguia-se imponente, indiferente ao clima e aos turistas.
Fico sempre impressionada quando imagino a construção destas obras de arte que são, para mim, um dasafio às leis da gravidade e uma prova da paciência dos mestres que as esculpiram.
E como sou dada a adjectivos para assim colorir os meus relatos tendo para a hiperbole.
Dado que ja tinha usado "fantástica" para outra coisa dei por mim a descrever a catedral de Colónia como "divinal".
O que é.
Em mais do que um sentido do termo.

Friday, October 23, 2009

Sexta, pela graça de Deus

No fundo dançavam notas musicais de mornas e coladeras.
Não lhes prestava atenção mas sentia-se confortável por sabê-las aí.
Senti-as como pontinhos de calor neste Outubro outonal.
Como as castanhas assadas.
Se fechasse os olhos sentiria o cheiro do Sal, essa mistura de mar e de deserto embrulhado pelo vento em música e solidão.
Mas agora estava distraído e não procurou outros sabores.

Engoliu, sem gosto, o café. Por hábito. Para ocupar o tempo enquanto esperava que ele passasse.

Esperava que o tempo, passando, o ajudasse a escolher.

E com isto se surpreendeu. Nunca fora seu feitio deixar que o ajudassem a optar, muito menos o tempo com a sua mera passagem.

Sinta-se amolecer, desinteressado. Qualquer coisa, tanto lhe fazia, o tempo que decidisse…

Agora sim, fechou os olhos e sentiu o cheiro do Sal.

Teve saudades.

Thursday, October 22, 2009

Discurso

Gosto da palavra.
(Afinal sempre foi no verbo que se começou).
Tenho por isso admiração por quem fala bem.
Adoro sentir-me presa a um discurso, a uma précita, a uma oração.
Fascinam-me os raciocínios bem articulados, os conteúdos bem ponderados, as conclusões lógicas.

Admito que também admiro aqueles que falam sem dizer nada.
A palavra pela palavra.
O discurso pelo discurso.
O vazio cheio de coisa nenhuma.